Psicologia On-line: uma tendência que veio para ficar

*Catherine Plata – Psicóloga Clínica e Neuropsicóloga

Talvez, um dos raros pontos positivos do difícil ano de 2020 e toda a onda de pandemia alastrada pelo mundo, foi a atenção que se passou a dar a nossa saúde mental. O aumento expressivo por tratamentos psicoterápicos durante este período versus a orientação do “fique-em-casa” trouxe a tona uma modalidade que já existia, porém ainda tímida no Brasil: a psicoterapia on-line – prática já habitual em outros países como Argentina, Austrália, Canadá e Estados Unidos.

Suspeito que a pandemia tenha favorecido a procura por terapia não apenas pelos motivos óbvios como a adaptação à nova rotina, insônia, isolamento social e etc, mas porque fomos obrigados a estar com a gente mesmo, em casa, fugindo menos dos problemas com distrações externas. Porque fomos obrigados a nos perceber diante do incontrolável, do inimaginável e percebemos que nossa mente precisa de muito, muito mais cuidado e atenção do que antes se dava. Acredito que tenha sido muito mais um “pôr em dia” do que uma demanda nova.

Os problemas emocionais não passaram a existir junto com o novo coronavírus. Na verdade, muitos de nós já nos devíamos este processo de cuidado, mas adiar sempre pareceu mais fácil. As crises de ansiedade, os quadros depressivos, os sentimentos de fracasso e frustração frente às demandas sociais, as comparações com a vida dos amigos “mais felizes do mundo” nas redes sociais, o sentimento de opressão profissional e a culpa por estar sempre precisando fazer mais no campo de atuação são algumas das razões que já demandavam a busca por um psicólogo. Mas nem todos reconheciam esta necessidade, nem tinham tempo para olhar melhor para dentro, ou ainda, reconheciam mas evitavam o autodiálogo.

O cenário atípico e inesperado que se formou no ano de 2020 fez cessar os preconceitos, medos e mal deixou brecha, tempo ou argumento para se fugir de si. As pessoas surgiram com um suporte para suas questões porque suas demandas transbordaram e passaram a entender que cuidar de si envolve cuidar do que passa na mente e no coração.

Tenho um jargão próprio que diz: “sem saúde mental, não há saúde” e a prova de sua consistência se dá quando na maior crise global de saúde e sanitária que já enfrentamos, o aumento por assistência psicológica chegou a um aumento de mais de 700%.

Enquanto psicóloga fico reconfortada em ver que a população descobriu a Psicologia como ferramenta para sua qualidade de vida. Enquanto pessoa, fico mais feliz ainda pois é possível traçar uma projeção de pessoas mais humanamente saudáveis daqui algum tempo.

Se não fossem os recursos tecnológicos, esta pandemia teria, literalmente, parado o mundo. Se não fosse o uso de plataformas virtuais não teriam aulas on-line, profissões home-office, nem compras virtuais. Conseguimos de dentro de casa continuar nos movendo e fazendo alguma coisa acontecer dentro do que foi apelidado de “o novo normal”.  E desse modo as pessoas conseguiram cuidar de si de dentro de casa, através da telemedicina ou da terapia remota.

A psicoterapia na modalidade on-line abriu caminhos. O que antes era um recurso -provavelmente temporário – para poder continuar os tratamentos em andamento, se tornou uma maneira que abriu espaço para que pessoas iniciassem o seu processo, e que, além de tudo, passou a se encaixar melhor na rotina corrida das pessoas. A flexibilidade dos agendamentos, a otimização do tempo, a facilidade ao acesso transformou o tabu “ir ao psicólogo” em “conectar-se ao terapeuta”. A ideia estereotipada do sujeito deitado no divã enquanto o analista mal fala alguma coisa foi superada por um encontro simplificado, acessível, movido a um diálogo humano e técnico ao mesmo tempo, em que busca tocar às suas questões com respeito e profissionalismo para elaborá-las.

Acredito que dentre todas as facilidades, iniciar o processo de dentro de casa a partir de seu dispositivo, trouxe uma maior mobilidade àquele que vinha adiando o movimento de buscar uma terapia para si. O processo se tornou menos burocrático, mais ajustável às rotinas e, de certa maneira, tudo isso envolve uma certa leveza, quebrando mitos e medos.

De acordo com a minha própria prática clínica e o mix de perfil de pacientes diversificados que recebi nos últimos tempos, posso perceber que a crescente busca se alastrou como uma instituição aceita finalmente em sociedade. A saúde mental, enfim foi reconhecida como parte do ser humano (e não apenas dos “malucos e fracos”). O autocuidado ampliou sua extensão, inclusive porque em um ano em que tanto se falou em doença, reconhecer que o estresse afeta o nosso sistema imunológico nos coloca a refletir realmente por onde devemos começar a traçar nossas estratégias de saúde, prevenção e cuidado.

A psicoterapia on-line universalizou a psicologia, deixando-a chegar em vidas que antes não se conseguia atingir, fosse por preconceito, falta de tempo, falta de percepção da necessidade, ignorância, preguiça ou qualquer outra justificativa do gênero.

Ao final desta pandemia, o atendimento on-line ficará instituído, aceito, bem quisto entre a população. Não será o fim do velho método tradicional do consultório. Será só uma forma a mais e mais fluída da Psicologia acontecer na vida das pessoas, afinal em última análise o que ela trabalha é impalpável, intangível, subjetivo. Um espaço físico/geográfico condiz mais com um hábito do que com uma necessidade. Considerando que hábitos se renovam ao passo que a sociedade se atualiza, a prática da terapia on-line parece atender muito bem ao dia-a-dia atual, sem engessar o autocuidado a um limite espacial e adequando esta forma de prática à realidade global do mundo que possui a tecnologia incorporada em todo seu funcionamento.

Assim, democratiza-se o espaço psicoterapêutico na vida da população. Seja para aqueles que preferem a sessão em consultório, seja para aqueles que optaram pelo processo em seu ambiente próprio conectado. O mais vibrante e importante ao se exaltar é a descoberta por este lugar, a acolhida da população por seus cuidados com o seu emocional e a conscientização geral da implicação da saúde mental em sua vida.

Sem sombra de dúvidas esse foi o maior feito da terapia remota: criar a comunicação com uma população que antes não chegava ao consultório. Viabilizar o processo. Criar uma rota direta ao acesso. Isso favorece a consciência e o respeito pela Saúde Mental. E de uns anos para cá, parece que era isso que a população vinha precisando, não é mesmo? 

*Catherine Plata – Psicóloga Clínica e Neuropsicóloga

Fundadora do projeto Sinapsi Mundi – Psicologia Sem Fronteiras

Whatsapp: (21) 99285-5246

www.catherineplata.com.br

www.sinapsimundi.com

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